Torquato
Neto
dentre 
imperceptíveis 
imagens

por Andréa Carvalho

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october 2006

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Minha namorada tem segredos
tem nos olhos mil brinquedos
de magoar o meu amor.

Um poeta que cantou os segredos dos olhos de sua namorada, desfolhou a bandeira e iniciou a manhã tropical, em poesia, canção e prosa, está retratado no espetáculo "ArTorquato", que esteve em cartaz no Rio de Janeiro durante o mês de setembro.

Um poeta desfolha a bandeira,  
e a manhã tropical se inicia.  
resplandente cadente fagueira  
num calor girassol com alegria,
na geléia geral brasileira
 que o jornal do brasil anuncia.

Torquato Neto (1944-1972) deve ser reverenciado como um dos maiores nomes da literatura dos anos de 1960. Suas letras continuam sendo ouvidas. Sua poesia, faca amolada que fere o "coro dos contentes", ainda atrai e desperta. Seu trabalho jornalístico na coluna Geléia Geral, publicada no Jornal Última Hora entre 1971 e 1972, é um boletim reflexo das inquietações artísticas de uma época. Sua morte, um suicídio,  trancado no banheiro, gás ligado, dia de seu aniversário de 28 anos, é emblemática e fecha o ciclo certeiro de internações psiquiátricas, depressões, enfim, frutos da proximidade afiada com a palavra, a fatal proximidade que só os verdadeiros artistas ousam.

Eis que esse anjo me disse
 apertando minha mão
 com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
 o coro dos contentes.

No Brasil dos anos de 1960, sob a ditadura e a conseqüente violenta repressão, quando a arte lutava para não sucumbir, Torquato Neto fez parte do grupo de resistência conhecido como "Tropicalismo", junto a nomes como Glauber Rocha, Caetano Veloso, José Celso Martinez Correa, Gilberto Gil, Rogério Duarte. Era considerado, por muitos, o cérebro do movimento.

Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos.  
É o risco, é estar sempre a perigo e sem medo,
 Ã© inventar o perigo
 e estar sempre recriando dificuldades
 pelo menos maiores,
 Ã© destruir a linguagem e explodir com ela.

O espetáculo "ÄrTorquato" tem dramaturgia e direção de Antonio Quinet, psicanalista proeminente que inicia sua carreira de dramaturgo. A dramaturgia, conforme consta no release do espetáculo, "está fundamentada nos conceitos da psicanálise que mostram as relações entre o que cada um tem de mais íntimo e o meio, feito de escolhas, parcerias e visão de mundo na convivência com os outros. Através da arte de Torquato, o espetáculo pretende levar o espectador a entrar no mundo fragmentado do Inconsciente."

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Tal fragmentação permeia todo o espetáculo mas o resultado não é consistente o bastante para o espectador inebriar-se com a poesia e a forte presença de Torquato Neto na expressão artística de seu tempo. Precisamos conhecer bem a trajetória de Torquato, sua poesia e seus tormentos, para acompanhar o espetáculo, visto o grande número de citações e de metáforas que se constróem dependentes deste conhecimento prévio.

Torno a repetir: ai, ai, ai.
 Torno a repetir: meu amor: ai, ai, ai.
 Onde é que você mora,
 em que cidade escondida,
 em que muda, qual Tijuca?  
Lá também quero morar.

A direção não equilibra essas especificidades da dramaturgia.  Talvez se o diretor não fosse o próprio dramaturgo esses pontos de obstáculo pudessem ser contornados.

Chegue e me diga: eu te amo mesmo assim.
 Eu devo responder igual, como sempre.  
Chegue e me aperte na parede,  
grite comigo: Babilônia.
 E depois se esqueça de mim e continue.
Vamos transar, vamos pintar, vamos gritar.

Em  "ArTorquato" não há a intenção de apresentar uma reconstrução histórica da vida de Torquato Neto, mas sim uma visão dramática da conexão entre seu inconsciente e a sociedade em que viveu. Entretanto, a teoria (dois anos de pesquisa teórica para a construção do espetáculo) não sucumbe à linguagem do palco. O resultado é um texto que -  em vão  - procura sua linguagem cênica, e uma linguagem cênica que procura o seu texto.

Há a poesia, muitas vezes presente em diálogos, em uma fila de citações, nem  sempre congruentes. Mas é ele presente, o poeta atormentado, artimanha de todas as artes. Um pouco do gosto da poesia de Torquato Neto fica na boca, com vontade de "quero mais". E isto parece mesmo uma inteligente arte do espetáculo para nos provocar. 

Agora não se fala mais nada
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início.

É louvável a iniciativa, sendo Torquato Neto um poeta desse desespero íntimo dos poetas loucos e suicidas. Arriscado trabalho foi este o de Antonio Quinet. Porém, riscos à parte, o espetáculo tem no mérito e trabalho dos atores o seu maior destaque.

O elenco é composto por Gilberto Gawronski, Cristina Aché, Rodolfo Bottino, Gisela de Castro, Gean Queiroz e Miguel Campello. Atores e atrizes bem escolhidos e com interessantes atuações. Dentre esses, o maior destaque se faz nos nomes de Gilberto Gawronski, que faz Torquato Neto, Rodolfo Bottino e Cristina Achè, que se dividem em diversos papéis, trabalhos de reconhecíveis marcas próprias, mesmo meio a tanta fragmentação. 

E fique sabendo: quem não se arrisca, não pode berrar.

Riscos e riscos, arriscar-se, o salto no escuro. Torquato  Neto viveu na raiz todos esses enredos. Enredos dos atores, músicos, poetas, dos artistas que chegam "perto de".

Agora
Eu sempre quis ser contente
E pode ser que eu já seja

ArTorquato

Dramaturgia: Antonio Quinet, baseado nos textos de Torquato Neto
Direção: Antonio Quinet
Elenco: Gilberto Gawronski, Cristina Aché, Rodolfo Bottino, Gisela de Castro, Gean Queiroz, Miguel Campello.
Cenografia: Victor Arruda
Figurino: Luiza Marcier
Iluminação: Luiz Paulo Neném
Direção Musical: José Eduardo Costa Silva
Direção de movimento: Sueli Guerra
Programação Visual: Noni Geiger
Direção de Produção: Julio Augusto
Produção Executiva:  Wagner Uchôa
Realização: Zucca Produções
Assessoria de Imprensa: João Pontes e Stella Stephany

Contato

www.zuccanet.com.br
zucca@email.com

Livros essenciais

Torquatália (dois volumes), de  Paulo Roberto Pires, Editora Rocco.
Pra mim chega – a biografia de Torquato Neto, de Toninho Vaz, Editora Casa Amarela.

As citações que entrecortam esse texto são de Torquato Neto, e foram retiradas da coletânea "Torquato Neto, últimos dias de paupéria", organização de Ana Maria Duarte e Wally Salomão, editora Max Limonad, 1982.

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©2006 Andréa Carvalho
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Andréa Carvalho é produtora, escritora e professora no Rio de Janeiro.
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