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Minha namorada tem segredos tem nos olhos mil brinquedos de magoar o meu amor.
Um poeta que cantou os segredos dos olhos de sua namorada, desfolhou a bandeira e iniciou a manhã tropical, em poesia, canção e prosa, está retratado no espetáculo "ArTorquato", que esteve em cartaz no Rio de Janeiro durante o mês de setembro.
Um poeta desfolha a bandeira, e a manhã tropical se inicia. resplandente cadente fagueira num calor girassol com alegria, na geléia geral brasileira que o jornal do brasil anuncia.
Torquato Neto (1944-1972) deve ser reverenciado como um dos maiores nomes da literatura dos anos de 1960. Suas letras continuam sendo ouvidas. Sua poesia, faca amolada que fere o "coro dos contentes", ainda atrai e desperta. Seu trabalho jornalÃstico na coluna Geléia Geral, publicada no Jornal Última Hora entre 1971 e 1972, é um boletim reflexo das inquietações artÃsticas de uma época. Sua morte, um suicÃdio, trancado no banheiro, gás ligado, dia de seu aniversário de 28 anos, é emblemática e fecha o ciclo certeiro de internações psiquiátricas, depressões, enfim, frutos da proximidade afiada com a palavra, a fatal proximidade que só os verdadeiros artistas ousam.
Eis que esse anjo me disse apertando minha mão com um sorriso entre dentes vai bicho desafinar o coro dos contentes.
No Brasil dos anos de 1960, sob a ditadura e a conseqüente violenta repressão, quando a arte lutava para não sucumbir, Torquato Neto fez parte do grupo de resistência conhecido como "Tropicalismo", junto a nomes como Glauber Rocha, Caetano Veloso, José Celso Martinez Correa, Gilberto Gil, Rogério Duarte. Era considerado, por muitos, o cérebro do movimento.
Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo e sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela.
O espetáculo "ÄrTorquato" tem dramaturgia e direção de Antonio Quinet, psicanalista proeminente que inicia sua carreira de dramaturgo. A dramaturgia, conforme consta no release do espetáculo, "está fundamentada nos conceitos da psicanálise que mostram as relações entre o que cada um tem de mais Ãntimo e o meio, feito de escolhas, parcerias e visão de mundo na convivência com os outros. Através da arte de Torquato, o espetáculo pretende levar o espectador a entrar no mundo fragmentado do Inconsciente."
Tal fragmentação permeia todo o espetáculo mas o resultado não é consistente o bastante para o espectador inebriar-se com a poesia e a forte presença de Torquato Neto na expressão artÃstica de seu tempo. Precisamos conhecer bem a trajetória de Torquato, sua poesia e seus tormentos, para acompanhar o espetáculo, visto o grande número de citações e de metáforas que se constróem dependentes deste conhecimento prévio.
Torno a repetir: ai, ai, ai. Torno a repetir: meu amor: ai, ai, ai. Onde é que você mora, em que cidade escondida, em que muda, qual Tijuca? Lá também quero morar.
A direção não equilibra essas especificidades da dramaturgia. Talvez se o diretor não fosse o próprio dramaturgo esses pontos de obstáculo pudessem ser contornados.
Chegue e me diga: eu te amo mesmo assim. Eu devo responder igual, como sempre. Chegue e me aperte na parede, grite comigo: Babilônia. E depois se esqueça de mim e continue. Vamos transar, vamos pintar, vamos gritar.
Em "ArTorquato" não há a intenção de apresentar uma reconstrução histórica da vida de Torquato Neto, mas sim uma visão dramática da conexão entre seu inconsciente e a sociedade em que viveu. Entretanto, a teoria (dois anos de pesquisa teórica para a construção do espetáculo) não sucumbe à linguagem do palco. O resultado é um texto que - em vão - procura sua linguagem cênica, e uma linguagem cênica que procura o seu texto.
Há a poesia, muitas vezes presente em diálogos, em uma fila de citações, nem sempre congruentes. Mas é ele presente, o poeta atormentado, artimanha de todas as artes. Um pouco do gosto da poesia de Torquato Neto fica na boca, com vontade de "quero mais". E isto parece mesmo uma inteligente arte do espetáculo para nos provocar.
Agora não se fala mais nada toda palavra guarda uma cilada e qualquer gesto pode ser o fim do seu inÃcio.
É louvável a iniciativa, sendo Torquato Neto um poeta desse desespero Ãntimo dos poetas loucos e suicidas. Arriscado trabalho foi este o de Antonio Quinet. Porém, riscos à parte, o espetáculo tem no mérito e trabalho dos atores o seu maior destaque.
O elenco é composto por Gilberto Gawronski, Cristina Aché, Rodolfo Bottino, Gisela de Castro, Gean Queiroz e Miguel Campello. Atores e atrizes bem escolhidos e com interessantes atuações. Dentre esses, o maior destaque se faz nos nomes de Gilberto Gawronski, que faz Torquato Neto, Rodolfo Bottino e Cristina Achè, que se dividem em diversos papéis, trabalhos de reconhecÃveis marcas próprias, mesmo meio a tanta fragmentação.
E fique sabendo: quem não se arrisca, não pode berrar.
Riscos e riscos, arriscar-se, o salto no escuro. Torquato Neto viveu na raiz todos esses enredos. Enredos dos atores, músicos, poetas, dos artistas que chegam "perto de".
Agora Eu sempre quis ser contente E pode ser que eu já seja
ArTorquato
Dramaturgia: Antonio Quinet, baseado nos textos de Torquato Neto Direção: Antonio Quinet Elenco: Gilberto Gawronski, Cristina Aché, Rodolfo Bottino, Gisela de Castro, Gean Queiroz, Miguel Campello. Cenografia: Victor Arruda Figurino: Luiza Marcier Iluminação: Luiz Paulo Neném Direção Musical: José Eduardo Costa Silva Direção de movimento: Sueli Guerra Programação Visual: Noni Geiger Direção de Produção: Julio Augusto Produção Executiva: Wagner Uchôa Realização: Zucca Produções Assessoria de Imprensa: João Pontes e Stella Stephany
Contato
www.zuccanet.com.br zucca@email.com
Livros essenciais
Torquatália (dois volumes), de Paulo Roberto Pires, Editora Rocco. Pra mim chega – a biografia de Torquato Neto, de Toninho Vaz, Editora Casa Amarela.
As citações que entrecortam esse texto são de Torquato Neto, e foram retiradas da coletânea "Torquato Neto, últimos dias de paupéria", organização de Ana Maria Duarte e Wally Salomão, editora Max Limonad, 1982.
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