Yes
nós temos 
Bananas e
Teatro
Vastos e 
imensos tópicos são 
levantados quando
começamos a pensar sobre 
o estado da arte no Brasil hoje

Arte não é prioridade, teatro não é para todos, o preço do ingresso é muito alto para boa parte da população.  Em áreas mais carentes não há (ou há poucos) teatros ou cinemas. A cidade é partida – culturas e valores diferentes são reafirmados política e socialmente. Existem exceções, poucas, obviamente.

Estamos aqui pensando sobre um tipo de arte que não está disponível a todos no Brasil. Teatro é uma arte cara, ironicamente. O teatro que não está no palco, isto é, o espírito cênico, esse é livre, acessível. Por exemplo, a representação em festividades, como o Carnaval, as escolas de Samba desfilando – é performance em seu melhor. A ironia é que não se pode ir ao teatro mas o povo é extremamente teatral – a arte da representação está presente no folclore e em diversas manifestações artísticas no Brasil.

A crise financeira na  produção é um terreno fértil para coisas novas, descompromissadas e cheias de risco.

O primeiro apoio para cultura foi para Fernando José de Almeida, um cabeleireiro do Vice Rei do Rio de Janeiro, que chegou de Portugal em 1801 e se tornou empresário de teatro. Almeida foi o primeiro a ter apoio financeiro da Coroa portuguesa  para um projeto cultural: construir o Teatro Real São João. Desde então, conforme Silvia Martins de Souza escreve em seu livro As noites do Ginásio:

    o requisito exigido para que se usufruísse de tal privilégio era uma ligação intima com os representantes do poder. De 1824 até o final do império, tal prática tornou-se uma  espécie de norma que associava a concessão de subvenções a uma política de boas relações entre os deputados e senadores, responsáveis por sua aprovação a partir de então. Os favorecidos eram sempre aqueles que usufruíam de uma situação de livre trânsito entre parlamentares influentes, os quais faziam as articulações necessárias a defesa  do próprio projeto em plenário

De  acordo com Silvia:

    (...) deve-se levar em consideração que esta era uma situação ideal para o governo, na medida em que em troca deste auxilio, eram assinados contratos que exigiam dos empresários o cumprimento de determinadas cláusulas que previam desde o uso da verba recebida até exigências quanto ao repertório a ser encenado ou ao corpo de atores a ser contratado pela empresa subsidiada. Vê-se assim que as concessões significavam para o governo uma forma de controle mais efetivo sobre o que deveria chegar ao público.

Isso foi no começo do século XIX, e quando lemos essas afirmações, baseadas na história e na pesquisa, percebemos que nada mudou. O que Silvia diz a respeito da produção no Rio de Janeiro do século XIX ainda é verdadeiro hoje. Um pequeno orçamento é destinado à cultura, não somente para o teatro, mas para as várias áreas culturais. É claro que não há o suficiente para todos.

O papel político na cultura brasileira tem mudado no passar dos séculos. O que é prioritário culturalmente é decidido através de gerentes de grandes empresas – que têm descontos de impostos ao patrocinarem projetos culturais que são escolhidos pelas suas equipes de marketing, de acordo com o que julgam ser mais apropriado aos seus objetivos promocionais. Eles são o grande poder na cultura brasileira hoje.

Artistas reclamam veementemente. O que resulta desse momento de crise e descomprometimento do Estado? Um teatro livre em sua expressão. O que temos hoje são pessoas investindo seu próprio dinheiro para a produção artística,  e indo em frente. É um risco grande – geralmente nunca se vê o dinheiro investido de volta. Portanto, o que não resulta de  patrocínios comerciais pode provavelmente definir artisticamente o estado da arte no século XXI. Então, dê uma olhada nos teatros pequenos. Eles não devem nada a não ser a si próprios. São livres, não têm de criar de acordo com ninguém. Exemplos: Virginias, de Anneli Olijum e Andréa Ribeiro, Marco Aureh cantando Sylvia Orthoff, os poemas musicais do Música Surda, as peças de André Brilhante para crianças, e Ovo Frito, a peça de Fernando Bonassi, só para citar poucos.

Assim sendo, qual o estado da arte e da vida hoje? Ambas trágicas, ambas sem nos dar respostas. Ambas duvidando e nos ensinando a fazer perguntas. Uma obra de arte que me responda, não interessa. O teatro é uma arte do contrário, contrariada em si mesma ou, como ouvi de uma menina de 4 anos, é lugar que mora gente feliz.

As peças buscam cada vez mais a queda das paredes, não somente da quarta parede brechtniana mas de todas: teatro interativo, teatro de comédia, teatro de participação, teatro invertido. Tudo vale para mostrar que a vida é um palco e somos meros atores, como Shakespeare ainda diz. Teatro que busca a sua palavra e seu verso, teatro que procura a sua platéia, que com olhos vidrados viverá  a experiência única e renovadora.

Teatro que diz para o mundo: nem só de bananas vive o Brasil.

"Mas hoje, porque o mundo é uma arena,
a arte é o que tinha de ser:
esta arma".
Pedro Lyra, Ideologema

Photo - Andre Brilhante's play "Um voo para Santos Dumont"

 

Andréa Carvalho is a writer and producer

 

©2005 Andréa Carvalho
©2005 Publication Scene4 Magazine

 

 

 

october 2005
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