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Música
Surda
em
Poesia
e
Canção

por Andréa Carvalho

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february 2007

Scene4 Magazine-Musica Surda

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"O amor dorme no peito do poeta" é um tocante poema de Federico Garcia Lorca que se tornou canção. "Mares Brancos de Palavras", verso de Cecília Meireles do poema "Itinerário", é título de recital. "Música Surda", um poema de Dante Milano, também encontrou a sua Musa. Não somente Cecília Meireles, Dante Milano  e Lorca, mas também Luis Vaz de Camões e Manuel Bandeira  à jovens poetas como Adriano Alves, Fabiano Hollanda e Jorge Dias. Todos esses autores se encontram na música e na poesia, na voz e nos violões do grupo carioca Música Surda.

Andréia Pedroso, Artur Gouvêa, Eduardo Gatto e Antônio Jardim  se dedicam agora a gravar o primeiro CD do grupo. E me receberam, depois de um ensaio, para uma conversa sobre música, literatura, poesia e até futebol.

Voz e Violões e Poesia

A delicada voz de Andréia Pedroso é acompanhada pelos violões de Antônio Jardim, Eduardo Gatto e Artur Gouvêa que é o mais recente componente do grupo. Nascido em 1977, músico, compositor, violonista, Artur é mestre em Letras, graduado em Violão.  Eduardo Gatto é violonista do grupo desde a sua primeira formação, em 2001. Nascido em 1976, compositor, formado também em Música e doutor em Letras. Integra, junto a Artur Gouvêa, o quinteto de violões "A Camarilha" e a  "Camerata de Violões do Conservatório Brasileiro de Música". Andréia Pedroso é a cantora do grupo. Licenciada em Artes e professora de canto. 

As composições são de Antônio Jardim que já tem "mais de 500 canções escritas e criadas!",  revela Eduardo Gatto, porém rebate Antônio "Tenho mais canções mas também tenho o dobro da idade deles... O movimento inicial é meu mas o trabalho de composição de Artur Gouvêa e Eduardo Gatto  tem sido extraordinário, eles tem re-inventado muitas das composições que inicialmente eram minhas. Talvez por uma questão de tradição não se entenda isso como uma parceria mas o trabalho é totalmente parcerizado.  Há músicas minhas que mudaram  radicalmente com o Música Surda, e o que o grupo faz envolve a participação de todos. Embora a maior parte das canções seja minha, as deles demonstram um grau de elaboração difícil de encontrar em quem está fazendo as primeiras composições".

Essa generosidade ao reconhecer a contribuição e valor de novos artistas não surpreende quem conhece o compositor. Graduado em Música e em Filosofia pela UFRJ, mestre em Musicologia, doutor em Letras, Antônio Jardim, 53 anos, é atualmente professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e da Faculdade de Letras da UFRJ. É  autor do recém-lançado "Música: Vigência do pensar poético" (Editora 7 Letras, 2006). Como compositor, já apresentou obras em importantes festivais de música contemporânea. Entretanto, como primeiro item de sua apresentação biográfica, declara a sua relação com um clube de futebol: Antônio é sócio, torcedor, ex-conselheiro do Fluminense Football Clube. Pergunto: Por que dentre a música, a filosofia e  a literatura, a referência ao Fluminense vem em primeiro lugar?

"Primeiro porque sou um jogador de futebol frustrado! (risos) O Fluminense é importantíssimo na minha formação. Acho que o futebol é um componente marcante  da cultura brasileira, mesmo muito massacrado hoje em dia. É completamente associado no Brasil à qualquer modalidade de criação. Para mim,  associado, fortemente, à  música. Música e futebol são os dois  momentos da cultura brasileira em que o brasileiro abandona o seu complexo de vira lata, como dizia Nelson Rodrigues, e se acha o máximo! Para fazer música e futebol não é preciso nenhum verniz cultural acumulado, pode-se usar  apenas a criatividade do corpo ou aquela doada pela natureza. A cultura brasileira não é uma cultura da escrita, é da oralidade, do corpo e da presença."

A característica principal do Música Surda é um repertório inédito, a partir de poemas de clássicos autores da literatura, e também de jovens poetas. E o grupo está procurando um parceiro poético mais constante. Diz Antônio:

"Estamos totalmente abertos. Se alguém quiser mandar um livro, pode mandar! Há alguns anos, um poeta de São Paulo chamado José Carlos Ricomini me mandou um livro e  um dos poemas, "Navegar", eu musiquei e gosto muito. Perdi contato com ele, gostaria muito de reencontrá-lo. É um poeta maravilhoso. Estamos procurando parceria com algum poeta que queira fazer um trabalho sistemático de música e texto conosco."

O Música Surda ainda aguarda a chegada de seu poeta...  Pergunto a Antônio Jardim se na Faculdade de Letras da UFRJ ele percebe algum movimento de nova e jovem poesia, já que os músicos do grupo estão ligados à pós-graduação na área de Literatura da Faculdade.

"Há um movimento sim. Infelizmente, ainda não encontramos ninguém para trabalhar conosco. A Faculdade de Letras da UFRJ vive um momento muito rico atualmente. Hoje há uma grande força de produção de poesia lá: tem o grupo Confraria do Vento, Arranjos para Assobio, A revista Pequena Morte, Tecido Vivo,  um grupo maravilhoso de poetas. Há muitos talentos como Mariana Werneck, Márcio André, Julia Grillo, Antônio Bezerra, Antônio Máximo, Eduardo Guerreiro, Chico Bosco, a maior parte deles muito jovens".

Na formação individual dos músicos do Música Surda percebe-se um percurso interessante que começa na tradicional Escola de Música da UFRJ, especialmente Antônio passa pela Filosofia, e todos ingressam na pós-graduação em Letras. Como isso começou?

Antônio Jardim reconhece:  "Na verdade, foi o professor Manuel Antônio de Castro quem me abriu todas as possibilidades para que eu desenvolvesse lá uma tese sobre Música. A figura do Manuel é importantíssima. Depois outros músicos foram para lá, bem antes de eu me tornar professor: o violoncelista Caio Benévolo, para mestrado; Werner Aguiar, para  doutorado; João Vicente Gazarolli, hoje professor da Escola de Belas Artes; e Leonardo Sá, para mestrado e doutorado".

Encontros

Como vocês se encontraram? Andréia nos conta:

"Existiam parcerias. Eduardo Gatto, Celso Aragão já eram do grupo "A Camarilha". E eu comecei a trabalhar em 1998 com Antônio Jardim que quando gravou o CD "Cantos de Memória" me convidou para cantar. Nós fizemos um show pela primeira vez juntos com o bandolinista Pedro Aragão. O Música Surda começou  naquela apresentação".

Foi de Andréia, após a leitura do poema de Dante Milano, a idéia para o nome do grupo:

 "Estava lendo o poema "Música Surda", que já havia sido musicado pelo Antônio Jardim, e eu o achei maravilhoso! Dei a idéia para título de um espetáculo ou como nome do grupo mesmo".

Como foi essa primeira formação?

Antônio responde: "Éramos cinco: Celso Ramalho, Márcio Meirelles, que tocava guitarra e percussão, Andréia Pedroso, Eduardo Gatto e eu. Quando o Márcio saiu, não o substituímos. Márcio é um músico ótimo de trabalhar, deu boas idéias,  algumas usamos até hoje. Celso Ramalho esteve no grupo por quatro anos e com uma enorme contribuição.  Tivemos ainda um integrante-relâmpago, André Poyart que só chegou a ensaiar conosco".

A poesia da canção

Grupos como o Música Surda andam na contramão de uma prática de cultura que parece excluir qualquer trabalho que esteja fora da grande "massa" do mercado. Vocês sentem isso?  Como é estar fazendo música de câmara no Brasil?  Que público é esse? Que espaço um grupo como o Música Surda busca ocupar?

Antônio responde: "É estar na contramão mesmo. Esse trabalho tem um sentido maior do que a aceitação que ele pode gerar. Não é de fácil assimilação. Você chama isso de música de câmara mas muita gente entenderia como música popular. Trabalhamos nessa fronteira entre a música de câmara erudita e a tradição da grande canção popular brasileira que começa na Modinha do século XIX e passa por Custódio Mesquita, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Francis Hime e, mais recentemente, Guinga. Se essa trajetória é considerada pelo mercado como indigna de ser ouvida, isso só nos une aos ouvidos indignos que estão dispostos a nos ouvir. Você tem razão, é uma contramão mesmo e isso é assumido até no sentido do título do grupo: Música Surda, estamos surdos, em certo sentido,  para essa massa de acontecimentos que resolveram chamar de música".

Acredito que essa história da canção, a qual você se refere, sofreu uma ruptura entre 1970 e 1980. Você reconhece na produção atual outros grupos e artistas que resgatam  essa trajetória?

"A minha tendência na vida é nunca achar que eu sou o único. Da mesma maneira que lutamos para ocupar um determinado espaço, há outras pessoas que estão lutando pelo mesmo. Existem trabalhos em que percebemos essa retomada. Acho que essa trajetória não acabou, mas houve uma descontinuidade, de vez em quando emerge alguma coisa. Trabalhos como o da paulista Monica Salmaso, por exemplo. Há pouco tempo, conhecemos  um grupo de jovens compositores muito interessante, Confraria da Música Livre,  cujo objetivo é muito tangente com o nosso que é o de retomar esse caminho descontinuado. Artur Gouvêa  e Eduardo Gatto integram A Camarilha que também apresenta, no campo da música instrumental, um trabalho próximo ao nosso. Ainda nesse campo, temos o quarteto Mahogani. É  reconfortante saber que não estamos sozinhos. Seria muito quixotesco ficarmos somente com os ouvidos indignos".

Artur Gouvêa reconhece uma fragmentação em relação à comunicação dentre novos grupos e artistas, o que impediria, em parte, a avaliação mais exata sobre o que está acontecendo: "Ninguém sabe o que o vizinho está fazendo ao lado. Fica mais difícil conhecer, reunir e fazer algum movimento".

Vocês acham que  falta um certo interesse de classe dentre músicos? Reconheço uma certa falta de organização política e mesmo para intercâmbio, principalmente  dentre músicos, assim como acredito que aconteça no meio do teatro, por exemplo.

Arthur diz: "Há hoje, na Internet, o Fórum Internacional da Música. Talvez surja algo importante a partir daí."

Antônio completa: "Depois de muito discutir na minha vida, descobri que o importante é fazer. Vi muita coisa ser discutida e ficar na discussão, sem desprezar o trabalho do Fórum que é importante. Você cita teatro  e música. Não coincidentemente, essas são as áreas em que houve a separação de uma entidade originária, entre o criador  e o intérprete. Isso é uma fragmentação histórica de longa data e que ainda traz conseqüências sérias  quando avaliamos a criação e a interpretação. Há uma série de problemas teóricos decorrentes dessa separação que talvez não discutimos o quanto precisaríamos".

O primeiro CD

Com o patrocínio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), o Música Surda pode dedicar-se nesse ano de 2007 a produzir seu primeiro CD. 

Andréia explica:

"Lançaremos nosso CD no final de 2007. Agora estamos na fase de liberação de direitos autorais e organizando a produção e ensaiando. Nosso trabalho é mais voltado para a pesquisa, é essa a fatia de mercado que iremos ocupar com esse CD".

Então, esperemos a chegada dos mares brancos de palavras que, por certo, nos trará esse amor adormecido no peito dos poetas.

Obrigada, Música Surda!

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Website: www.letras.ufrj.br/musicasurda
Email:  musicasurda@gmail.com

Imagens: Paula Leite

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©2007 Andréa Carvalho
©2007 Publication Scene4 Magazine

 

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Andréa Carvalho é produtora, escritora e professora no Rio de Janeiro.
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