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Augusto dos Anjos é mais um poeta que chama a atenção dos artistas de teatro. "Eu, Augusto dos Anjos" é um espetáculo que traz o poeta nascido na Paraiba em 1884 e o ator Luiz Henrique Nogueira, após seis anos de trabalhos exclusivos em cinema e televisão.
Considerado na história da Literatura Brasileira como o primeiro poeta moderno, apesar de sua morte prematura aos 30 anos, Augusto dos Anjos foi autor de somente um livro, publicado em 1900: "Eu".
O poeta do mórbido, do que é profundo e escuso na alma humana, com sua poesia entre o simbolismo e o pré-modernismo, se tornou popular. É difícil encontrar um estudante ou qualquer outra pessoa escolarizada que não reconheça os primeiros versos do soneto "Versos Íntimos":
Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão - esta pantera - Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!
Através de cartas, poesias e algumas críticas, que nunca reconheceram seu trabalho, a peça "Eu, Augusto dos Anjos" traz a história de vida do poeta, suas raízes Nordestinas, a imigração para o Sul, sua relação com as mulheres.
Luiz Henrique Nogueira faz o papel de Augusto dos Anjos. Luiz Henrique é um ator respeitado e conhecido, por seu trabalho como ator e diretor de elenco no teatro e cinema. Recentemente, se tornou popular pela sua atuação em novelas de televisão brasileiras.
Agora Luiz Henrique prova um outro lado de seu trabalho de ator, representando o poeta que fez da tragédia e do peso a palavra resistente que segue adiante por meio de significados superlativos.
O espetáculo ficou em cartaz na Casa da Gávea, Rio de Janeiro, em outubro e novembro de 2006. O elenco inclui também os atores Leandro Crespo, Renato Reston, Fabiana Duarte, Marta Metzler, Rubens De Araújo e Vera Fajardo. A direção e a adaptação são de Joaquim Vicente.
Nogueira, que demonstra dose certa na construção de Augusto dos Anjos, nos contou como foi essa experiência de viver o poeta no palco.
Como você se envolveu neste trabalho? O projeto é do autor e diretor da peça, o Joaquim Vicente, que foi assistente de direção de um espetáculo do Tchekov que fiz em 96!!! Em 2005, fizemos uma leitura na Casa da Gávea e ele conseguiu em 2006 o patrocínio da Funarte, o Prêmio Miriam Muniz. Eu estava acabando uma novela na TV Record, então, tudo se encaixou! Como foi essa descoberta de Augusto dos Anjos, o poeta, na sua vida? Eu não sabia quase nada dele, foi uma revelação. Um ator sempre aprende fazendo um espetáculo. É comum pesquisarmos sobre o assunto da peça de forma mais aprofundada. Nesse espetáculo li tudo dele e sobre ele e me apaixonei. Augusto é ecológico, niilista, moderno, enfim, muito mais do que simplesmente mórbido como querem reduzi-lo. Você construiu uma bem sucedida carreira na TV com personagens eminentemente cômicos. Como foi, então, essa trajetória rumo a Augusto dos Anjos, o poeta conhecido pela sua morbidez e pessimismo? Nunca tinha feito humor, só fui fazer na TV e, na verdade, me surpreendi. No teatro me interesso mais por dramas, peças mais líricas. Talvez o humor que se faz no teatro hoje em dia me interesse muito pouco, como ator e como espectador até. Então, voltar pra algo denso em cena, pra mim, é como voltar pra casa. Observo que há multiplicidade de gêneros diferentes no seu trabalho: em teatro e TV, em gêneros diversos, do cômico ao clássico. É uma escolha consciente para a construção de sua carreira? A carreira de um ator no Brasil é muito complicada, como em quase toda parte do mundo, mas fiquei por 12 anos só fazendo teatro. Essa escolha foi consciente sim. Mas chega um momento que não temos muita escolha, tentar a TV é inevitável. Tenho tido muita sorte com meus personagens na televisão. Santa Clara me abençoou! No teatro realmente escolho mais meus projetos. Não sou um ator de personagem em teatro, sou de projeto. Vou pelo autor, pelo diretor, pela seriedade da proposta, enfim, tento sempre crescer. Mas como diz Clarice Lispector: "Nascer é tão comprido". Qual o poema , trecho, citação, de Augusto que mais te toca? Não sou eu quem falo em cena, mas... "Meu coração tem catedrais imensas". Esse verso para mim é o mais bonito da língua portuguesa. Falo um texto sobre o Brasil que ele escreveu e adoro também: "No Brasil somos uma agremiação sinistra de membros inutilizados. Uma sociedade doente de paralíticos ,com os dedos frios balançando para sempre, com a vitalidade comprometida!!! Ah nosso amor desinteressado por essa pátria miserável por cuja felicidade nos damos gostosamente em sacrifícios!! Hoje não há mais profetas!!". Isso em 1910. Para você, que dor é essa na poesia de Augusto dos Anjos? A dor de viver, a dor de saber que se nasce, sofre e morre. Nada mais que isso. Mas ele era um poeta e escolheu caminhos e linguagens que melhor expressassem seus sentimentos e medos. O que Augusto dos Anjos, o poeta que você percebe e o personagem que você constrói em cena, ensinam ao ator, homem e artista Luiz Henrique? Ainda não consigo ver todo o benefício que o mergulho nesse trabalho me trouxe. Mas fiz 40 anos há 1 semana e estar vivendo Augusto nesse momento é bastante revelador. Estar lidando com a morte, não só porque era seu assunto predileto, mas porque o próprio poeta fala de tempo, quando ele mesmo morreu aos 29 anos, tem sido duro em alguns momentos. E na cena da morte sempre me emociono, eu Luiz. Me emociona saber que aquela pessoa viveu tudo aquilo e morreu tão jovem. Minha mulher na peça na cena de minha morte fala: "E duplamente ele morreu porque morreu tão moço". Isso é trágico para mim. Quais são seus projetos futuros? Quero fazer mais teatro!!! Fazer teatro me da vontade de fazer mais. Estava há 6 anos fora do palco, fazendo preparação em cinema e TV, estava feliz. Mas fico mais quando estou no palco. Existe algum outro poeta ou escritor que você gostaria de viver no palco? Existe. Eu queria muito fazer um projeto que acalento... O livro de cartas do Caio Fernando Abreu é um registro lindo dos anos 80. Adoraria viver o Caio e fazer algo em teatro com essas cartas.
Fotos - Dalton Valerio
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