|
A canção da canção é uma obra renovada. Não é a canção primeira que a memória guarda. É o significado material da canção possível de ser resgatado quando queremos ter de volta algum tempo, ou quando algum tempo quer de volta uma canção. Por alguns dias de minha vida, ficamos como uma festa em família cantando somente Sylvia Orthoff, composta musicalmente por Marco Aureh. Essas canções irão sempre trazer de volta um tempo de festa, infância e alegria.
O primeiro trabalho que conheci de Marco Aureh foi o CD "Cantando Sylvia Orthoff" que traz um conjunto de músicas criadas para a poesia de uma das mais respeitadas escritoras da literatura infantil brasileira.
Músico e compositor, Marco Aureh vem afirmando uma carreira importante no teatro, como compositor de trilhas sonoras e diretor musical de espetáculos musicais, sendo o mais recente: "João do Vale, o poeta do povo".
Mas não é somente o teatro para crianças que é constante no trabalho de Aureh. Ele já fez rock progressivo e com o grupo Zé Vagão já trabalhou com os ritmos nordestinos, uma influência que percebemos até em suas composições para o público infantil.
Incansável, Marco já prepara novo show e CD.
Nesta entrevista, Marco Aureh nos conta sobre sua trajetória e sua vida na arte.
Marco, você é, primeiramente, um músico. Como você começou no teatro? Laboratório eu faço desde cedo. Minha mãe, além de uma excelente cantora, também tinha uma veia teatral fortíssima. Ela criava vários tipos. De repente, estávamos na sala conversando ou jantando e ela surgia encarnando um personagem. Era muito hilário. Mas, atuar mesmo, eu comecei na escola, em Petrópolis. Depois, participei de um grupo de palhaços "Pipócolis". Nessa época eu aprendi a me conectar com a energia do palco, onde você tem que expandir sua aura, seu magnetismo, e não há melhor escola para isso do que a dos "clowns". Quando participei da primeira montagem teatral, atuei como ator, no papel principal inclusive (risos), e como eu já era músico, fui juntando as duas funções. Daí pra frente, não parei mais de compor trilhas e fazer direções musicais.
Você vem de uma família de músicos. Seria impossível você seguir outra carreira? Acho que não. Eu poderia seguir outra carreira. Nenhuma de minhas irmãs assumiram a música profissionalmente, embora uma das três, cante e toque muito bem. Mas decidi trabalhar com arte desde muito cedo. A melhor coisa de ter vindo de uma família de artistas é que ela me deu muita liberdade para criar e assumir também a arte como profissão, rola um respeito por esse movimento, nunca me senti reprimido nesse sentido, pelo contrário.
E os trabalhos para o público infantil? Eu conheço bem o sobre Sylvia Orthoff. Se não me engano, essa história começou no "Aroma das Cores" – que era um grupo de atividades recreativas (incluindo música, teatro, culinária e yoga) voltadas para a criança. Nos anos 90, participei de diversas montagens teatrais infantis, dei aulas de musicalização em escolas, onde lancei 3 CDs com a participação dos alunos, nesse período eu compus muita música para crianças. O próprio "Pipócolis", chegou a gravar um disco de vinil que lançamos em muitos programas infantis da época, como Xuxa, Carequinha e Daniel Azulay. O CD mais recente foi o "Cantando Sylvia Orthoff", onde reuni uma série de músicas da nossa parceria e também montei o espetáculo musical homônimo que você assistiu. Gosto muito de trabalhar com crianças.
Você trabalhou com Sylvia Orthoff. Como foi esse encontro e a convivência com ela? Trabalhamos juntos sim, formamos uma bela parceria. O encontro se deu quando estávamos com a Cia teatral "Pessoal Aí", apresentando "A História de Lenços e Ventos", do Ilo Krugli. De repente, em cena aberta, um casal bateu palmas de pé. Eram Sylvia e seu marido, Tato, que também foi ilustrador de muitos de seus livros. Após a apresentação ela convidou o nosso grupo para montar um texto seu. Daí para frente iniciou nossa parceria. Depois criamos o "Teatro do Livro Aberto", onde atuávamos somente com textos direção de Sylvia. Viajamos bastante. Aprendi muito com ela. Uma criatividade incrível, instigante.
E a banda Zé Vagão? É especializada em ritmos nordestinos? Conte para nós como funciona o grupo. A banda, inicialmente, se chamava "Brasilino". A música nordestina sempre foi a proposta do grupo. Depois, quando montei o espetáculo musical "Cantando Sylvia Orthoff", o nome mudou em homenagem a um texto de Sylvia, "Zé Vagão da Roda Fina e sua mãe Leopoldina". Esse musical viajou muito, foi visto por cerca de 50 mil pessoas, principalmente na região sul do país. O grupo "Zé Vagão" teve um racha recentemente e o projeto foi para o baú, assim como o espetáculo, que pretendo remontar logo que tiver tempo.
Você ainda trabalha com música progressiva? O que você está fazendo nesse campo? A música progressiva é a minha grande paixão. Atualmente, não estou fazendo nenhum projeto especificamente voltado para este gênero, mas trago sempre a influência dele em mim. No musical do João do Vale, por exemplo, criei uma introdução para a música "Carcará", que tem uma cara bem progressiva, tá no sangue, não tem jeito!
Como surgiu o espetáculo "João do Vale, o poeta do povo"? Foi um convite? Era um projeto seu? Como você encontrou a música e a arte de João do Vale? A bela música desse gênio eu já conhecia, não tanto quanto passei a conhecer após essa direção musical, mas "Carcará", "Cel Antônio Bento", "Pisa na Fulo", "O canto da Ema", "Na asa do vento", etc... já estavam na minha memória melódica. O convite partiu de Carlos Augusto Nazareth, que seria o diretor desse espetáculo de Maria Helena Künner (que acabou assumindo a direção com a saída de Carlos Augusto). Ensaiamos exaustivamente por 2 meses e agora estamos colhendo os frutos com o reconhecimento da crítica e do público que tem se emocionado muito com o espetáculo. A vida de João é um ensinamento.
Como você compara o mercado teatral e musical para o artista brasileiro que trabalha nesses dois meios? Sempre foi muito difícil. A música de qualidade não tem muito espaço. As TVs abertas nivelam por baixo e as rádios continuam com o famoso "jabá". Mas há mais alternativas do que para o teatro. A Internet, por exemplo, permite venda de arquivos sonoros, mas o teatro só existe lá no palco, feito na hora, ao vivo. Qualquer outra mídia não representa o teatro, nisso ele fica sendo único, porém, menos abrangente também. Sem contar o segmento das casas noturnas que emprega muitos músicos. Já o teatro em si, depende, normalmente, de uma estrutura mais apurada, o que acaba limitando sua expansão.

Você teve uma formação musical autodidata. Isso foi uma escolha ou uma circunstância? Digo isso porque quando se pensa em estudar música, normalmente, uma formação em Escola de Música ou em Conservatórios é um primeiro passo. Ou seja, a formação mais acadêmica é, às vezes, mais valorizada. Como foi esse seu processo de aprendizado e descoberta da criação musical em você? Foi uma opção circunstancial, eu diria. Sempre estive rodeado de músicos - tios, sobrinhos, mãe cantora e amigos da família que participavam em saraus na casa da minha avó. Desde cedo, então, fui pesquisando com muita dedicação e paixão também. Depois, comecei a estudar para me aprimorar, fiz vários cursos de teoria e harmonia, mas nunca seguindo o academicismo que tem uma tendência castradora. O João do Vale é um ótimo exemplo, não tocava nenhum instrumento, mas tinha a musicalidade interior impressionante, ela brotava de dentro para fora, com muita criatividade. E essa originalidade que os conservatórios (o nome já indica) tentam moldar colocando todos numa forma. Arte e forma não combinam.
A que você está se dedicando agora? Estou montando com o elenco e os músicos do musical, o show "Na Asa do vento", a banda se chamará, "Coroné Antônio Bento e os Carcarás", tocaremos só músicas do João do Vale. Além disso, continuo no palco com o musical "João do Vale – o poeta do povo".
Projetos futuros Investir nessa nova banda e no ano que vem pretendo montar um show e um novo CD com minhas novas composições.
TOME NOTA
Marco Aureh site: www.marcoaureh.com.br Marco Aureh email : contato@marcoaureh.com.br
|