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april 2008

por Andrea Carvalho Stark

Existe balé clássico no Brasil?  

Sim. Se conferirmos a fila de meninas e meninos que lotam os corredores da mais tradicional escola de balé clássico do Brasil em época de exame de seleção para novos alunos.

Não. Se reconhecermos a ausência de projetos culturais para essa arte no Brasil. Por exemplo, em uma cidade como Rio de Janeiro é modestíssima a temporada de balé clássico, assim como a de ópera. Dentre vários problemas que assolam a cultura no Rio de Janeiro, o balé clássico nunca é contemplado com projetos de grande porte ou de circulação de espetáculos.

Sim. Se observarmos a longa fila que se faz por horas na porta do Theatro Municipal para comprar ingressos e assistir ao “O Lago dos Cisnes” ou “O Quebra Nozes”.

Sim. Se analisarmos a formação dos bailarinos brasileiros. Além do talento,  dedicação e paixão de cada um, uma formação rigorosa, disciplinada e administrada por profissionais brasileiros parece ser o diferencial. São eles quem dizem “sim” como ponto de partida para que vocações nascentes desabrochem no mundo da dança clássica. Algo a mais do que ensinar como se deve pôr as sapatilhas corretamente.  

Não. Se soubermos dos talentos brasileiros que são obrigados a deixar o país para construir carreira no balé clássico.  

Christiane Pegado, Taina Ferreira e Karina Moreira são jovens e talentosas bailarinas que começam agora esse caminho. São formadas pela Escola de Dança Maria Olenewa do Rio de Janeiro, instituição que forma bailarinos clássicos há oitenta anos. Mas isso não é novidade. Alguns dos bailarinos e bailarinas que a escola formou estão trabalhando em outros países: Roberta Márquez é hoje primeira-bailarina do Royal Ballet, em Londres; Ana Carolina Quaresma, que começou no Balé de Stuttgart aos 16 anos, hoje está no Balé de Zurique, na Suíça; Isabel Seabra primeira bailarina do Theatro alla Scala, em Milão; Mariana Dias do Corpo de Baile do Balé de Leipzig, Alemanha; Denise Rezende, da Companhia Nacional de Bailados, em Portugal; William Pedro, do Balé Bejárt de Lausanne. E ainda Poliana Ribeiro, Letícia Oliveira e Ludmila Campos que atuam em companhias de balé clássico nos Estados Unidos.

Parecem numerosos mas casos como esses são raríssimos. Ir para o exterior significa se adaptar a uma nova língua e cultura, sentir saudades, participar de audições e enfrentar uma forte e muito bem treinada concorrência. Somente aqueles que estão muito certos de sua vocação são capazes de viver - com prazer - uma vida assim.  

Christiane Pegado, 18 anos, começou no balé aos 11. De formação absolutamente clássica, Christiane participou de diversos festivais tais como o Prix de Lausanne, christianep-cro Festival de Joinville e também o Seminário Internacional da Dança em Brasília onde ganhou a medalha de ouro e a bolsa de estudos para a Alemanha pela Fundação Birgit Keil.  

Desde 2007, Christiane está na Academia de Dança da Escola Superior de Música e Artes Cênicas de Mannheim. E planeja manter uma carreira no exterior. E o Brasil? Diz Christiane: “Infelizmente o campo de trabalho no meu país é muito restrito no que se refere ao balé clássico. Por isso, nós que queremos ser bailarinas clássicas, temos que procurar outros países para dar continuidade e realizar o sonho de ser bailarina. No meu caso, estou muito feliz com essa bolsa, com a escola e com a oportunidade de ter a experiência de viver em outro país, conhecer novas pessoas e novas culturas, apesar de que no futuro gostaria de ser bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e viver no meu país. Dançar é a minha vida, é o meu sonho.”

Taina Ferreira tem 17 anos. Participou de importantes espetáculos no Brasil: “O Lago dos Cisnes” no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e “Um Conto de Natal” de Dalal Achcar foram os mais recentes.

taina-face2-crAos 11 anos, Taina ingressou na Escola de Dança Maria Olenewa e lá estudou até ganhar a bolsa para a Escola da Ópera de Viena, na Áustria.

Taina pretende construir uma carreira no exterior. Mas reconhece o quanto pode ser difícil, algumas vezes. Diz Taina: “É complicado os bailarinos viajarem pelo mundo fazendo audições e procurando empregos. São poucas as pessoas que tem condições de financiar essa aventura. E que muitas vezes pode ser frustrante. As companhias internacionais costumam dar preferência para alunos formados em suas escolas. E no Brasil a única companhia de balé clássico é a do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e não há audições freqüentemente. E bailarinos querem dançar, não só fazer aulas.”

Por que você foi fazer faculdade de Biologia e não de Dança?  “Optei por outra área de estudo porque eu acho que não podemos nos focar em uma coisa só ou estaremos estagnados. Temos que sempre procurar fazer coisas diversificadas para sermos felizes com o que temos e não nos cansarmos de nossas opções”.

Karina Moreira, 18 anos, aponta a necessidade de buscar oportunidades em outros países mas pretende retornar ao Brasil: “No Brasil o campo de atuação é restrito daí a necessidade karinam-crde termos que ir para o exterior buscar aperfeiçoamento e trabalho. Em futuro próximo pretendo retornar ao Brasil para desenvolver a experiência adquirida fora”.

Karina já dançou “Copelia”, “O Corsário”, “A Bela Adormecida”, “A Flauta”, “O Lago dos Cisnes” , “Um Conto de Natal”. Já participou e foi premiada em diversos festivais de dança clássica pelo Brasil. E foi em um desses festivais que Karina ganhou a  bolsa de estudos para a Academia de Dança da Escola Superior de Música e Artes Cênicas de Mannheim.

O que significa dançar para você? “É o meu sonho de criança. É transcender meu corpo em arte. Dançar é vida, dançar é amor. Está no meu sangue”.

Em comum, as três bailarinas mostram um tipo de leveza que não está somente em um assemblé que assombra a platéia. Essa leveza  pertence também à  coragem. Uma coragem necessária que somente os verdadeiros artistas sabem expressar quando falam com sinceridade sobre sua vocação.  

Vida longa para as sapatilhas é o que desejamos.

Conselho das três bailarinas para uma jovem bailarina

CHRISTIANE PEGADO

Nunca se esqueça: “Lutar sempre; vencer, às vezes; desistir jamais”. O balé é trabalho, dedicação e amor.

TAINA  FERREIRA

Se você não está disposta (o)  a se dedicar completamente à dança, não faça, pois irá sofrer. As pessoas costumam dizer que a vida no balé exige muitos sacrifícios, mas isso só é verdade para quem não ama de fato a dança. Porque quando você ama o que  faz, os sacrifícios deixam de ser sacrifícios,
passam a ser apenas escolhas, para você desenvolver o seu caminho.

KARINA MOREIRA

Muita determinação, muita disciplina, muita garra, não desistir com os obstáculos que surgirem, estudar muito e nunca desistir do sonho.

Anote:
Escola Estadual de Danças Maria Olenewa
Direção: Maria Luiza Noronha
www.eedmo.com.br

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©2008 Andréa Carvalho Stark
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Andréa Carvalho Stark é escritora no Rio de Janeiro.
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